domingo, 13 de janeiro de 2019

REVOLUÇÃO CUBANA - 60 anos de Luta e Resistência!


“La Lucha por la vida, la Voz de la ilusión, la Luz de la utopia, Ésto es La Revolución”
¡Patria o Muerte, Venceremos!


A REVOLUÇÃO CUBANA COMPLETA 60 ANOS
_Frei Betto*

      1º de janeiro de 2019, 60 anos da Revolução Cubana. Quem diria? Para a soberba dos serviços de inteligência dos EUA a ousadia dos barbudos de Sierra Maestra, ao livrar Cuba da esfera de domínio de Tio Sam, era um “mau exemplo” a ser o quanto antes apagado das páginas da história. A CIA mobilizou e treinou milhares de mercenários e Kennedy mandou-os invadir Cuba (1961). Foram vergonhosamente derrotados por um povo em armas. E, de quebra, a hostilidade da Casa Branca levou Cuba a se alinhar à União Soviética. O tiro saiu pela culatra. Mexer com Cuba passou a significar aquecer a Guerra Fria, como o demonstrou a crise dos mísseis (1962).

      Tio Sam não botou as barbas de molho. Transformou cubanos exilados em Miami em terroristas que         derrubaram aviões, explodiram bombas, promoveram sabotagens. E investiu uma fortuna para alcançar o mais espetacular objetivo terrorista: eliminar Fidel. Foram mais de 600 atentados. Todos fracassados. Fidel faleceu na cama, cercado pela família, em 25 de novembro de 2016, pouco antes de a Revolução completar 58 anos. Havia sobrevivido a 10 ocupantes da Casa Branca que autorizaram operações terroristas contra Cuba: Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho.

      Fracassada a invasão da Baía dos Porcos, impôs-se o bloqueio a Cuba (1961). Medida criticada por três papas em visita a Havana: João Paulo II (1998), Bento XVI (2012) e Francisco (2015). Porém, a Casa Branca não escuta vozes sensatas. Prefere se isolar, ao lado de Israel, a cada ano em que a Assembleia da ONU vota o tema do bloqueio. Pela 27ª vez, em 2018, 189 países se manifestaram contra o bloqueio a Cuba.

      Com a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética (1989), os profetas da desgraça prenunciaram o fim do socialismo cubano. Não falharia a teoria do dominó... Equivocaram-se. Cuba resistiu, suportou o Período Especial (1990-1995) e se adaptou aos novos tempos de globalização.

      Muitos se perguntam: por que os EUA não invadiram Cuba com tropas convencionais (já que os mercenários foram derrotados), como fez na Somália (1993), Granada (1983), Afeganistão (2001) e Iraque (2003), Líbia (2011), Síria (2017), Níger (2017), e Iêmen (2018)? A resposta é simples: uma potência bélica é capaz de ocupar um país e derrubar-lhe o governo. Mas não derrotar um povo. Esta lição os estadunidenses aprenderam amargamente no Vietnã, onde foram escorraçados por um povo camponês (1955-1975). Atacar Cuba significaria enfrentar uma guerra popular. Após a humilhação sofrida no Sudeste Asiático, a Casa Branca prefere não correr o risco.

      Por que Cuba incomoda a tantos que associam, indevidamente, capitalismo e democracia? Porque Cuba convence as pessoas intelectualmente honestas, que não se deixam levar pela propaganda anticomunista fundada em preconceitos, e não em fatos, que, apesar de toda a campanha mundial contra a Revolução, na ilha ninguém morre de fome, anda descalço, é analfabeto com mais de 6 anos de idade, precisa ter dinheiro para ingressar na escola ou cuidar da saúde, seja uma gripe ou uma complexa cirurgia do coração ou do cérebro. No IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da ONU, que abrange 189 países, Cuba ocupa melhor lugar (68º) que a maioria dos países da América Latina, incluído o Brasil (79º lugar).
      Enquanto o capitalismo enfatiza, como valor, a competitividade, a Revolução incute no povo cubano a solidariedade. Graças a isso Cuba despachou tropas, nas décadas de 1960 e 1970, para ajudar nações africanas a se libertarem do colonialismo europeu e conquistarem sua independência. Raúl Castro foi o único chefe de Estado estrangeiro a ter direito a discursar nos funerais de Mandela, porque o governo da         África do Sul reconheceu a importância da solidariedade cubana para o fim do apartheid.

      Graças à solidariedade, professores e médicos cubanos se espalham por mais de 100 países, trabalhando nas áreas mais pobres e remotas. E graças aos princípios éticos da Revolução, em Cuba não se vê famílias debaixo de pontes, crianças de rua, mendigos estirados pelas calçadas, cracolândia, máfias de drogas. Os delatores da Odebrecht denunciaram todos os agentes públicos corrompidos nos países da América Latina nos quais a empresa atuou. Menos Cuba, onde ela construiu o porto de Mariel.         Algum delator quis defender Cuba? Óbvio que não. Apenas nenhum cubano se deixou corromper.

      O povo cubano chegou ao paraíso? Longe disso. Cuba é uma nação pobre, porém decente. Apesar do bloqueio e de todos os problemas que ele acarreta, seu povo é feliz. Por que então muitos saem de Cuba? Ora, muitos saem de qualquer país que enfrenta dificuldades. Saem da Espanha, da Grécia, da Turquia, do Brasil, da Venezuela e da Argentina. Mas quem sai? De Cuba, aqueles que, contaminados pela propaganda do consumismo capitalista, acreditam que o Eldorado fica acima do Rio Grande. Os mesmos que se regozijam com a emigração de uns poucos cubanos jamais se indagam por que nunca houve em Cuba uma manifestação popular contrária ao governo, como acaba de ocorrer na França (jalecos amarelos) e também recentemente na Tunísia (2011), Egito (2011), Turquia (2016), e anteriormente nos EUA (Seattle, 1999).

      Haveria um Cuba soldados ou guardas em cada esquina? João Paulo II declarou que lhe chamou a atenção não ver veículos militares nas ruas ao visitar Havana, como observou em tantos outros países. A maior arma da resistência cubana é a consciência da população.

      A Revolução Cubana comemora 60 anos! É muito pouco para um país triplamente ilhado: pela geografia, pelo bloqueio e por ser o único da história do Ocidente a adotar o socialismo. E quando os cubanos comemoram, não olham apenas para o passado de tantas gloriosas conquistas entre muitos desafios e dificuldades. Inspirados por Martí, Che, Fidel e Raúl, os cubanos sabem que a Revolução ainda é um projeto de futuro. Não só para a Cuba, mas para toda a humanidade, até que as diferenças (idioma, cultura, sexo, religião, cor da pele etc.) não sejam mais motivo de divergências, e a desigualdade social figure nos arquivos de pesquisas apenas como uma abominável referência histórica, como é hoje a escravatura.

      Longa vida à Revolução Cubana!

_Frei Betto* é escritor, autor de Paraíso Perdido – Viagens pelo Mundo Socialista (Editora Rocco), entre outros livros.

🙋🏽‍♀🇨🇺🙋🏽‍♂ Aqui ninguém se rende!

Golias sem sossego60 anos da Revolução Cubana

A Bíblia é repleta de histórias em que o impossível, em verbo, se faz carne para vencer o que se costuma dar por inevitável. É assim no Êxodo, na luta contra as forças do faraó, que põe fim à escravidão do povo hebreu no Egito; é assim quando o moleque franzino Davi derruba o poderoso gigante Golias; quando a jovem sem terra é escolhida como mãe do filho de Deus; quando a ressurreição retira dos opressores a última palavra, demonstrando que a maior das repressões é impotente ante o anseio de um povo por sua libertação. Para a história, o “impossível” é logo ali.

A ditadura derrubada

Localizada a 120 quilômetros da costa sudeste dos Estados Unidos, Cuba é logo ali. Diz-se que à noite dá até para enxergar as luzes de Miami.
Na década de 1950, a ilha se encontrava submetida a uma violenta ditadura. Os ricos dos Estados Unidos e seus aliados, entre eles os grandes proprietários de terra, haviam promovido um golpe de Estado e colocado no poder um cara chamado Fulgêncio Batista. Batista fazia o que Herodes fez no tempo de Jesus: massacrava o povo em nome dos interesses do império. A classe trabalhadora não tinha direito nem ao pão nem à greve. No campo, quem suava para fazer a terra produtiva, não possuía terra para plantar. Cuba não pertencia aos cubanos.
Foi então que, em 26 de julho de 1953, um grupo de militantes, liderado por um jovem advogado chamado Fidel Castro, rebela-se e tenta tomar de assalto o Quartel Moncada, uma das principais bases militares do regime. Perdem a batalha. Alguns são torturados, mortos, olhos arrancados. Fidel é preso.
Nesse instante, a Igreja Católica, grande proprietária de terras e detentora do monopólio escolar, divide-se. O cardeal de Cuba Manuel Arteaga e Betancur havia celebrado a instauração da ditadura, mas alguns bispos, como Alberto Evelio Díaz, auxiliar de Havana, posicionam-se contrários ao autoritarismo e, inicialmente, apoiam os rebeldes.
Graças à pressão popular, Fidel, marxista e com reconhecida formação cristã, é solto em maio de 1955 e exilado no México, onde organiza o Movimento Revolucionário 26 de Julho. Lá conhece um jovem médico argentino, Ernesto Guevara, que se junta ao grupo. Em final de novembro de 1956, o pequeno barco Granma, com capacidade para 14 pessoas, parte com 82 combatentes em direção à ilha. A missão revolucionária é retomada.
Mal desembarcam, são metralhados do alto por aviões. Dos oitenta e dois, somente doze chegarão vivos ao dia do triunfo, que acontece em primeiro de janeiro de 1959, em meio a uma massiva festança popular que ganha as ruas. Fugêncio Batista foge, carregando consigo parte da riqueza que roubara do povo cubano.
Com a sensação do dever cumprido, o militante Mustelier fala a Che (apelido dado a Guevara) que pretende sair em visita familiar. O comandante responde incisivamente que não. “Che, mas a revolução já ganhou”; “Não! Ganhamos a guerra. A revolução começa agora”. Nos três dias seguintes, retornam a Cuba oitocentos exilados de vários lugares da América.
Aos 12 revolucionários sobreviventes, somaram-se inúmeros camponeses sem-terra. Aos 12, uniram-se a juventude e milhões de trabalhadores e trabalhadoras da cidade. Aos 12, incorporou-se a memória de incontáveis mártires da libertação. Sem esse encontro, a vitória não teria sido possível.

A ousadia de construir uma nova sociedade

Sem o menor apreço pela soberania de um povo por ele antes dominado, os Estados Unidos engrenam uma sequência incalculável de ataques terroristas. Criam um criminoso bloqueio que impede ou dificulta as transações comerciais com outros países, promovem ataques à bomba em fábricas, incêndios em lavouras e assassinatos. Só contra Fidel se registram mais de seiscentas e vinte tentativas frustradas de tirar sua vida.
A partir de abril de 1961, a Revolução passa a ser declaradamente guiada por ideais socialistas. O aprofundamento das transformações na estrutura social afeta “os interesses patrimoniais do clero e da oligarquia cristã”, que abandonam o país. O estranhamento da parte clerical não combina com a liberdade de culto conquistada com a Revolução. Como lembra Frei Betto, “todas as religiões, inclusive os cultos afro-cubanos – até então proibidos –, passam a ter os mesmos direitos”. E continua: “muito mais grave foi o drama dos leigos que, conflitados pela oposição dos bispos – mas convencidos da obra de justiça realizada pela Revolução –, preferiram optar por esta e, ao fazê-lo, tiveram que deixar de frequentar a Igreja. Muitos, porém, jamais perderam a fé”. Os diálogos entre governo e bispos seriam reabertos dezesseis anos mais tarde.
Como todo movimento popular, as difamações e mentiras vindas dos instrumentos que atuam a serviço do capital bombardeiam nosso imaginário de maneira contínua e programada, o que não isenta a Revolução Cubana de erros e contradições verdadeiras.
Erros nascem todos os dias. Alguns deles, heranças não superadas da sociedade antiga. Vários foram assumidos publicamente e corrigidos, como é o caso do tratamento abusivo contra homossexuais nos primeiros anos, reconhecido por Fidel, a partir do fortalecimento da luta LGBT.
Pouco antes da morte de Fidel, que acontece em novembro de 2016, a Revolução entra em novo período de transição. Raul Castro, velho combatente guerrilheiro, assume a direção, até a eleição de Miguel Díaz-Canel, em abril de 2018, ano em que a Assembleia Nacional aprova novo texto constitucional, onde se reafirma o caráter socialista da Revolução. Em fevereiro agora, o documento passará por referendo popular.
Entre as medidas políticas tomadas pelo governo neste período, há as que utilizam princípios do mercado para dinamizar a economia, prejudicada por mais de cinco décadas de bloqueio ianque. Decisão que alguns consideram deveras arriscada, por receio de se tornar um caminho sem volta.
Não é possível prever até onde vai a resistência do povo cubano num planeta tomado quase que de cabo a rabo pela lógica desumanizante do “só vale o que se tem”. Contudo, a massiva participação popular presente em todo o processo constituinte, mostra que o que está mesmo difícil de voltar é o capitalismo.
O novo presidente, Díaz-Canel, de 58 anos de idade, nasceu e se formou numa Cuba bem diferente daquela da época em que os cassinos e as empresas dos Estados Unidos é que mandavam, quando o país era chamado de “prostíbulo do caribe”.

O ser humano como óbvio

Frei Betto nos fornece um bom retrato da realidade ao afirmar que, para os ricos do mundo, Cuba é um inferno; para a classe média, um purgatório; mas, para a maioria da população, sobrevivendo em meio a tanta miséria, a cidadania cubana é um paraíso invejável.
Não é preciso ir muito longe para se ter uma noção do que diz o dominicano. Basta enxergar a cor negra da pele dos inúmeros médicos e médicas que vieram de lá trabalhar no Brasil, algo tão difícil de se ver em nossa elitização branca excludente. Como diz José Martí, precursor da soberania popular na ilha: “A melhor maneira de dizer é fazer.”
O que faz um pequeno país latino-americano, situado tão perto do maior império de todos os tempos, cercado de água e de agressões terroristas por todos os lados, sendo rota frequente de furacões, ter um dos melhores e mais universal sistema público de saúde do mundo, uma das melhores educações, sem analfabetismo, com índice de mortalidade infantil comparativamente tão baixo? O que faz esse povo ser tão solidário? Em 2010, no terremoto que vitimou centenas de milhares de vidas no Haiti, enquanto os Estados Unidos se preocupavam em enviar soldados, Cuba chegou primeiro com sua delegação de médicos. Por que? O que faz um país relativamente pobre não ter fome nem crianças dormindo nas ruas? Será um milagre? Países da África se libertaram da dominação colonial com o apoio irrestrito e desinteressado de uma Cuba que enfrentava invasões mercenárias contra seu próprio território. Como se preocupar assim com os outros, quando sua própria casa enfrenta problemas tão sérios? Como um povo consegue priorizar a liberdade diante de uma existência tão ameaçada? De onde vem essa fé? Quantas mães empobrecidas, espalhadas pelo mundo, puderam segurar seus filhos nos braços graças às mãos da medicina missionária cubana? Quanta esperança foi parida na América Latina, ensanguentada por golpes de Estado e ditaduras, por efeito desse testemunho de amor?
Em Cuba, a prioridade é o ser humano. Não acredita? Vai lá, ou procura no google. Quando a humanidade precisa ser convencida do óbvio, é sinal que as coisas não andam boas.

No desembarque do Granma, em meio ao barulho ensurdecedor de voos rasantes, bombas e rajadas de metralhadoras; diante de companheiros que tombavam mortos; na luta contra forças armadas imensamente mais poderosas; um grito de rebeldia irrompe o impossível: “Aqui ninguém se rende!” E de lá para cá, o gigante Golias nunca mais teve sossego.

_Por Thales Emmanuel, militante da Organização Popular – OPA.
Originalmente publicado em Informativo Redentorista.

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